António Dias

 O mundo a caminho do fim

Estamos no outono que mais parece verão. Nos dias de fecho desta edição de novembro andámos por aqui a transpirar com temperaturas a ultrapassar os 30ºC. Um absurdo e um sinal dos tempos. As alterações climáticas de que toda a gente fala estão, calmamente, a afetar as nossas vidas. Este ano mataram mais de 100 pessoas nos incêndios no centro do país, pela mesma altura em que gelo em excesso, na Antártida, afastou pais e crias pinguins e matou toda uma geração destas aves, cerca de 40 mil. No mesmo continente que tem agora um buraco do tamanho da Irlanda. Na Califórnia, a seca não tem fim e este ano os fogos nas florestas junto ao Pacífico provocaram a morte de uma dezena de pessoas, destruindo 1500 casas. Nos mesmos EUA atingidos por três furacões de dimensões extraordinárias. Bem perto de nós, o Tejo vai morrendo. Este foi um verão pavoroso, com toneladas de peixe e gaivotas a sufocarem nas margens do rio. De Espanha vem cada vez menos água e o curso natural é cada vez mais um cocktail de fertilizantes, químicos e poluição de diversas indústrias. As notícias passam nos telejornais, há malta que vocifera mas poucos aparecem. Em outubro, em Lisboa, um pequeno grupo de manifestantes pregou contra o Ministério do Ambiente. Nem fez mossa. Ninguém quer saber. A sequela de Al Gore, “Uma Verdade Incoveniente”, está prestes a estrear no cinema e com ele vem uma nova fornada de factos, provas de que a mudança está aí. “E que ninguém pense que Marte é a nossa salvação. É aqui que vamos viver”, avisa o ex-vice-presidente dos EUA. Ao olhar para as poucas mudanças sociais, sobretudo em Portugal, pareceme nem da Terra vamos sair. É aqui que iremos morrer e vamos levar o planeta atrás. António Dias*

O Tejo tão perto e tão longe

Nasci em França, cresci no Cartaxo, estudei em Lisboa, traba-lhei em Azambuja, Santarém e Vila Franca de Xira. O Tejo sempre me acompanhou. Lembro-me em miúdo de fazer piqueniques em Valada, das cheias tão esperadas pelos agricultores e que abasteciam o subsolo para evitar secas no verão. Sempre respeitei o rio e choca-me que se possa poluir este curso de água tão precioso. E, pior, que se lhe vire as costas. Foi isso que aconteceu durante décadas. Já viajei bastante e conheci cidades com cursos de água ou sobraceiras a baías que usufruem das suas margens de uma forma perfeitamente simbiótica. Sydney e São Francisco são exemplos fabulosos. Ambas as cidades são banhadas pelo Pacífico e nas suas bay areas há casas encostadas às margens com acesso direto à água e barcos familiares ancorados. Paris, Londres ou Amesterdão, abraçam as suas margens, constroem casas flutuantes, muitos cidadãos são proprietários de embarcações e há um culto pelos desportos náuticos. Toda estas cidades viram as suas habitações para o lado bonito do seu rio. Respeitam-no.
O Tejo é o que se vê. Tapado por armazéns, linhas de comboio, lixeiras, contentores, aquele que é o maior rio que atravessa Portugal foi votado ao abandonado durante décadas. Nunca entendi esta incapacidade de aproveitar as riquezas que temos e de, inclusive, as destruirmos. O Algarve é um caso paradi-gmático de um destino que se deixou esmagar. Podíamos, no sul do país, ter uma linha costeira de fazer inveja ao Mónaco e, pelo contrário, os ricos preferem o sul da França, Espanha o Itália. Restam-nos os desordeiros que vêm celebrar o fim do secundário. É triste.
É inútil tentar perceber de quem é a culpa. O que importa é lidar de frente com o futuro e resolver os problemas. Dar a volta e acabar com este marasmo. E, penso, que isso está a acontecer. O objetivo da reportagem deste mês, sobre o turismo a norte de Lisboa, é de mostrar que há ideias, vontade e potencialidades por explorar. Todos os nossos entrevistados são unânimes em afirmar que a mudança demorará décadas. Mas ela é palpável e dá-me esperança. O futuro hotel que poderá ser construído entre o Forte da Casa e Alverca é um sinal positivo. Queremos mais!

Gostaste do que leste? Assina, faz gosto e partilha