Colete, identidade e tauromaquias

Por David Fernandes Silva* | Chegámos a Julho! Julho, em Vila Franca, é Colete Encarnado, festa que honra o campino, como sinal da nobreza telúrica do Ribatejo. Não é uma simples festa regionalista ou etnográfica, mas é uma festa de identidade e por isso, mesmo com concertos e actividades recreativas, não é um “festival de verão”, mas é um hino ao pulsar vilafranquense, simbolizada pelocampino, que é sinal de coragem, de bravura, de fidelidade ao campo, à terra ao gado bravo, de quem cuida, guarda e domina. É, por consequência, uma festa taurológica, porque é o toiro bravo que motiva que haja campinos e, por isso, as esperas, as touradas, as tauromaquias vividas e experienciadas invadem a cidade e, sendo certo que é difícil dizer o que constitui a identidade de um povo, não será preciso observar muito para perceber como a tauromaquia anda intrinsecamente ligada à identidade vilafranquense. Mesmo hoje, em que a cidade já tem o seu quê de suburbanidade, pelo Colete Encarnado ou Feira de Outubro, se houver toiros, todos saem de casa e permanecem nas ruas, restabelecendo simbolicamente o diálogo interpessoal e com a natureza, na admiração profunda deste laço genético com a festa dos touros, numa “brincadeira” que se sente milenar. Por isso, a história da tauromaquia vilafranquense não esquece casos como o de D. Miguel (que aqui vinha correr toiros), da necessidade popular de (re)construir praças (como sinal identitário e totémico de uma cultura) ou inclusivamente a manutenção de rituais taurinos com claras reminiscências nos primitivos cultos cristãos e mitráicos, procurando, através do toiro e pelo controlo da força animal, expressar simbolicamente a partilha/vida comunitária, numa linha estética e ritual. A tauromaquia demonstra metaforicamente características de “tragédia” (no sentido clássico): hybris (desafio) ecatarse (purificação), que perpassam, inclusive, no “ritual” estético das esperas e largadas. Bem sei que há uma “missa rociera”, mas deixo aqui um desafio adicional a um “prior afoito” que queira voltar a fazer, em Maio (como nas origens) ou até pelo Colete, aquilo que foi a primeira manifestação tauromáquica e religiosa da cidade, nos rituais das festas do Espírito Santo, em Vila Franca, narrada pelo historiador oitocentista João Amaral: “A procissão era acompanhada de um novilho de dois anos, ligado com cordas, e seguro pelos vaqueiros, o obrigavam a entrar na igreja (Igreja da Misericórdia)(…). Então o capelão da confraria (…) chegava ao novilho que tinha nos cornos um missal aberto onde o capelão lia o evangelho de S. João (…) e acabado que fosse deitava-lhe a bênção e o aspergia com água benta; findo este acto os vaqueiros conduziam o novilho para o lugar onde era morto (…) confrades e conhecedores dos necessitados faziam a distribuição do bodo.” A festa e a refeição andam eminentemente ligadas. Na festa, falta-nos ainda, parcelarmente, o Ágape, em que todos se irmanam. Até lá, temos o Colete Encarnado, festa em que todos se congregam, em torno do tributo ao campino, ao toiro que o justifica e à partilha que enaltece a cidade. Vivam a Festa.

*estoriador

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