Quem perde, paga

No século XIX, alguns escritores românticos chamavam a Vila Franca “o casino do Tejo”, porquanto os jogadores, entre fados e discussões empolgadas sobre toiradas, sempre encontravam uma taverna, casa particular ou clube para vir jogar a dinheiro (e isto muito antes dos “casinos” do Central ou do Clube). Aliás, o jogo, nas longas noites das festas chiques, eram um momento obrigatório. Numa dessas festas, em Vila Franca de Xira, em casa de José Januário Lapa, futuro 1° visconde de Vila Nova de Ourém, jogava-se com frequência gamão, então muito em voga. Certa noite, jogava com o Lapa o padre Patrício Xavier de Moura e Brito, natural de Setúbal, que era então simultaneamente pároco de Vila Franca e, por inerência, presidente da Junta de Freguesia. Este frei Patrício era um figurão: frade graciano, chegara a ser nomeado por D. João VI cónego da Bemposta e capelão particular da infanta D. Isabel Maria, simplesmente à conta da magnífica voz de que era dotado. Sendo legitimista, teve que se “exilar” na sua terra natal, até que foi mandado paroquiar a freguesia de Vila Franca de Xira, onde pululavam também muitos miguelistas. Frei Moura era como se estivesse em casa… Ora, em tons de gracejo, durante a festa, apostaram que, se o Lapa perdesse e viesse a ser ministro, arranjaria maneira de o prior vir a ser bispo. Januário Lapa perdeu. Com o tempo, deixou de ser apenas
administrador das Lezírias do Tejo, e, por méritos próprios e sucesso político, chegou a ministro. O prior, que nunca o perdera de vista, ao sabê-lo ministro, foi visitá-lo e parabenizá-lo pela nomeação. Recordado da promessa, derivada da aposta perdida, o Lapa conseguiu-lhe a mitra de Cabo Verde. Mas mesmo tendo sido eleito bispo, em 1846, manteve-se como pároco em Vila Franca até 1848, gerando um facto curioso: ser prior de Vila Franca, ser presidente da Junta de Freguesia e, apesar de estar em território continental, governar eclesiasticamente Cabo Verde. Era dotado de uma inteligência social muito grande, e, apesar de um primado pouco feliz, marcado por vários conflitos, até foi um prelado zeloso. Administrou a diocese de Cabo Verde cerca de dez anos, tendo, por motivo de doença, pedido a sua apresentação na Sé do Funchal. Nunca escondeu que tinha “ganho o bispado ao jogo” e os seus cronistas não o omitiram, apesar dessa situação ser moralmente muito criticável, mas tal não era de admirar, tendo em conta a prática de jogo que, na época, afamava Vila Franca. Afinal, tinha ganho no melhor casino do país. D. Patrício Xavier de Moura morreu em 1872, em Lisboa, para onde se tinha retirado alguns anos antes. Não tanto pela “aposta” ou pela “cunha”, tinha-se deslumbrado com Vila Franca e a galhardia das suas gentes e, por isso, a fama diz-nos que, no leito de morte, pedia para vir ver o Tejo a Vila Franca.

David Fernandes Silva, estoriador
o autor escreve conforme a antiga grafia

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