A velha vila

Chegamos a Maio, mês em que habitualmente recai o feriado municipal, o da Quinta-Feira da Espiga ou da Ascensão. O que significa aludir a uma das mais antigas romarias do Ribatejo: a do Senhor Jesus da Boa Morte, em Povos – Vila Franca de Xira. A romaria existe, pelo menos, desde o século XVIII, e é uma das grandes festividades da cidade de Vila Franca de Xira, com missa, procissão, bênção dos campos e da cidade. A propósito dessa festa, gostaria de falar um pouco da antiga vila de Povos, hoje administrativamente englobada na freguesia de Vila Franca de Xira. Tem origens imemoriais e quase míticas, ao ponto de, durante séculos, certos autores a terem identificado com a cidade romana de Ierabrica, que até hoje não foi encontrada. De facto, no seu território, ainda há vestígios do domínio romano e também árabe, ao ponto de percebermos que o que sobra do seu castelo (no mesmo Alto do Senhor da Boa Morte) era um fortificado do domínio berbere, que foi tomado, em 1147, pelas tropas afonsinas, e entregue à Ordem do Templo. O topónimo Povos refere-se ao facto de a sua estrutura de vila acastelada recolher as populações dos vários povoados em redor, que nasceram em torno de torres de atalaia (Vila Franca, Alhandra, etc.) e de cujo castelo eram foreiras. Povos teve foral castelejo em 1195, dado por D. Sancho I, e, mais tarde, em 1514, D. Manuel I outorga-lhe Foral Novo. Falamos, pois, da mais antiga autarquia do actual concelho de Vila Franca de Xira. Depois de séculos de rica história, a partir do século XIX acentuou-se a feição rural de
Povos e foi decaindo. A partir dos anos 60 do século XX, na zona da antiga Quinta do Cabo e nas antigas propriedades da família Palha, Povos voltou a ter um incremento populacional e urbano e é hoje uma grande vila, com muitos bairros e estruturas habitacionais. A época menos gloriosa motivou que o concelho de Povos tenha sido extinto em 1836 e a sua freguesia tenha ficado anexa à de Vila Franca, no final do século XIX, até ser sido extinta como freguesia em 1942. O facto da sua freguesia e concelho terem sido extintos, não significa que ela se tenha extinguido enquanto vila, pelo que é incorrecto dizer “bairro de Povos” ou “zona de Povos”. Povos continua a ser vila e, como tal, tem orgulho nos seus “pergaminhos” Os habitantes da vila de Povos, os povosenses, são ainda hoje profundamente “bairristas” e tem motivos para o ser: ou não fosse daí a “barca de Povos” que Camões cantou; ou não tivesse sido do seu cais que partiu Bartolomeu Dias a dobrar o cabo da Boa Esperança; ou não tivessem nascido aí o grande José da Costa e Silva, arquitecto do Teatro Nacional de S. Carlos e do Palácio de Queluz (1747-1819); ou não fosse daí natural o matador de toiros José Falcão; ou não tivesse ali nascido José Van Zeller Pereira Palha, fundador do Colete Encarnado (1895-1978). Por isso, quando chega Maio, todo o concelho se volta para o Senhor da Boa Morte e recorda, no seu feriado municipal, que ali, naquele castelo, que hoje mal se nota, nasceu o seu domínio público autárquico. Viva a vila de Povos!

David Fernandes Silva* *estoriador *

O autor escreve conforme a antiga grafia

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