Palcos

Das muitas evocações do mês de Março, gostava aqui de referenciar duas. A primeira é o Dia Internacional da Mulher, que foi instituído há 100 anos, a 8 de Março de 1918, evocando as lutas laborais das mulheres, não por privilégio de género, mas pela equidade e igualdade de direitos laborais. Nessa medida, este Dia é sobremaneira um momento, a partir do exemplo combativo das mulheres, conscientes dos direitos naturais e da humanidade, em que assinalamos o desejo haver igual acesso vivencial (laboral, político, social, cultural, etc.) a todo o ser humano. É de salientar que, apesar desta importante “mensagem”, a ONU só o adoptou em 1975 e, mesmo assim, pelo mundo fora, há muita gente que acha que a Igualdade “é apenas para alguns”. A humanidade está de parabéns pelas mulheres combativas que teve.

Depois, temos o Dia Mundial do Teatro, a 27 de Março, que evoca uma grande e antiga Arte, em que homens e mulheres se irmanam, uma vez que o espectador vê em palco a sua própria Humanidade e pode plasmar-se com as personagens, num notável “Efeito de Espelho” ou “Democracia do Palco” que de igualitariza o ser humano.  A propósito desta evocação, gostaria de referenciar aqui o 1º conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela (1801-1869), cuja titulatura resulta do local onde teve o seu principal palácio, no Farrobo (Loja Nova), em Vila Franca de Xira. É uma figura emblemática e contraditória, típica dos empresários do século XIX, muito pouco cautelosos, megalómanos (à conta das suas festas, ainda hoje usamos a expressão “farrobodó”, para designar a desmesura e descontrolo), mas muito apaixonados pela Vida e pelas Artes. Nascido numa família de negociantes, os Quintela já tinham tido um papel preponderante, com a criação, em 1771, da ‘Sociedade para a Sustentação de Teatros Públicos’, que deu origem a dois teatros: o Teatro da Rua do Condes (para ópera) e o Teatro do Salitre (para drama e comédia, em português).

De tal modo Amante das Artes que, nos seus palácios, tinha que ter sempre um teatro, quer no das Laranjeiras, quer no do Farrobo, com “ante-estreias” das peças do Teatro Nacional D. Maria II e das óperas do São Carlos. A sua situação financeira permitiu em grandemente que o Teatro português, a partir de Garrett, mantivesse uma fabulosa actividade, protegendo e criando condições aos artistas. Foi inspector-geral dos Teatros, director do Conservatório Real de Lisboa e empresário do teatro de São Carlos. Como mecenas, foi dos que mais apoiou a construção do Teatro Nacional e, graças a ele, foi possível construir o Real Teatro de São Carlos, pois cedeu os terrenos para o edifício, em troca da propriedade de um camarote, fronteiro ao da família real.

O poder voraz dos tempos fez do palácio do Farrobo uma grandiosa ruína, de onde desapareceu quase tudo, excepto os espectros das representações e a memória do Conde que amou profundamente o Teatro… Às vezes, ao passar pelo Farrobo (aposto que o Quintela gostaria) penso que aquele espaço daria uma fabulosa “Escola de Artes Cénicas”. Quem sabe?!

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