Natal campino

Apesar de sociologicamente hoje o Natal ser encarado como a “festa da família”, a “partilha de presentes” ou meramente um desenfreamento comercial, o Natal é o “nascimento de Cristo”, que é afinal o que a palavra significa. Por isso, se dizia antigamente, quando alguém fazia anos, que “cumpria o seu aniversário natalício”. Mas, porque não quero entrar em questões moralistas da celebração natalina, gostava de vos falar sobre o antigo Natal da lezíria, a partir de uma recolha que fiz há uns anos, junto de duas camponesas. Nos campos alagados da lezíria, a vida era de frugalidade ou até de pobreza extrema, da cama sem lençóis, só de esteira, de um dia de Natal que soava melhor de alimento para “quem tinha criação” e de como se “guardava a galinha melhor para esse dia”, que depois de cozida ainda se multiplicava em canja e mais “um bocadinho a cada um, porque era a desejo”. A noite era sem solenidade, “era tudo normal, não havia cá festas” e na ceia, havia o de sempre: “sopa de feijão, mostardas e massas, um bocadinho de toucinho e de chouriço. Não se fazia fritos, mas fazia-se umas fatias paridas”. Só muito mais tarde se vulgariza o arroz doce (e singelo: “casca de limão, arroz e açúcar. Não havia cá leite nem manteigas”) os filhoses e os fritos. Mais tarde, às vezes, fazia-se também o arroz de castanhas: “coze-se as castanhas, demolha-se para tirar a pele de um
dia para o outro, raspa-se bem e lava-se só um pouco, para não tirar o doce. Põe-se ao lume, um bocadinho de azeite com um pouco sal, põe-se um pau de canela, quando o arroz está quase cozido põe-se açúcar e deixa-se cozer muito bem. Frio ainda é melhor que quente!” E presentes? “Prendas, para nós, era uma fatiazinha no sapatinho e o sapatinho era posto à beira do lume”. No universo do campo, parecia maior a feira de Outubro que o Natal: “vínhamos pouco à vila, só pela feira e pelas cheias”, pois, se o Natal e a Páscoa eram passados no campo, toda a gente vinha a casa, pela feira de Outubro “e estreavam uns vestidinhos de chita, à godés; os sapatos eram uns chinelos com os pompons à frente. Toda a gente estreava uma coisinha fosse o que fosse.” Nestes dias em que os centros comercias se enchem de dourados, em que os presépios modernos já só têm reis (porque trazem presentes) e já não têm os pobres pastores, talvez não fosse mau lembrar que na imagem do nosso “Natal Campino”, está a pobreza e a simplicidade do MeninoDeus que quis nascer pobre e humilde, numa manjedoura, para nos recordar a humildade e que o maior presente é aportar a felicidade ao outro. Passada a memória, o Natal está hoje diferente e a lezíria está como os campos de Belém, serena e silenciosa, à espera que venha o Menino! Um Santo Natal!

David Fernandes Silva

estoriador

Please follow and like us:

Faça o primeiro comentário a "Natal campino"

Comentar

Gostaste do que leste? Assina, faz gosto e partilha