Sinais do céu

David Fernandes Silva | Estoriador | Não sou astrónomo, nem astrólogo, mas estou certo que os astros e a sua análise exercem sobre muitos um fascínio que depois ligam com a Natureza e a História. Mesmo quando a ciência aponta explicações racionais sobre fenómenos astrofísicos, nada impede que as pessoas, no domínio das suas crenças, fé ou conceitos pessoais e filosóficos, os reconheçam como sinais e retirem deles conclusões. É, por exemplo, nessa medida que se inclui o “milagre do Sol”, de Ou-tubro de 1917, na Cova da Iria, em Fátima, cujos 100 anos passaram há pouco.
A história “astronómica” da nossa região está por escrever, mas é importante falar aqui de um grande “sinal no céu” (e não, não falo dos avistamentos de ovnis, no Ribatejo…), cuja estória se liga com a História de Vila Franca de Xira e de Portugal. Falamos do “grande cometa de 1577”, avistado há 440 anos. Reinava, em Portugal, D. Sebastião, um rei que parecia personificar o retomar dos “sonhos de glória portugueses”, mas cujo mau conselho conjugado com uma juventude impetuosa, teve triste fim. Naqueles dias, andava a preparar a jornada de África, ainda a decidir se e como havia de ir numa nova “cruzada” em terras berberes.
A 9 de Novembro, D. Sebastião tinha ido a Salvaterra de Magos e vinha de galé pelo Tejo, decidindo ir pernoitar a Vila Franca de Xira, onde por vezes a avó, D. Catarina, se recolhia e a quem bebia muitos conselhos. Ficou na Quinta de Tomé de Sousa, outrora primeiro governador do Brasil.
Antes do jantar, subiu à varanda com D. Afonso de Castelo Branco, para tomar ar viu aquele cometa magnífico, cuja enorme cauda pintava o firmamento. Conta-nos frei Bernardo da Cruz: “[o cometa] era ígneo e caudato, estendido para o meio dia, aonde é África; apareceu por quarenta dias contínuos, (…) sempre à mesma hora, e sempre no mesmo lugar; e recolhendo-se El Rei da varanda, os que assistiam a mesa praticavam sobre a novidade, que sendo sempre teme-rosa, eles tocados de espírito adulador diziam joviais, jogando do vocábulo: que cometa era o mesmo que acometa; e significava que Sua Alteza acometesse os mouros; e tanto agradou a El Rei o dito por se ajustar aos seus pensamentos que dali para diante repetia muitas vezes estas palavras: diz o cometa que acometa; porém a contrária inteligência foi de todos; porque todos entenderam que o cometa anunciava sucesso trágico”
O povo de Xira bem se persignou perante tal sinal, estando o rei por ali, e dizia que o “cometa de Vila Franca” não augurava nada de bom, que “se o céu estava ferido, só havia de trazer morte”. E assim foi, porque o rei “acometeu” à mourama e não mais voltou, deixando para Vila Franca o momento em que um rei tentou ler os sinais no céu, mas que, por ter sido mal interpretado, lançou Portugal num nevoeiro.

David Fernandes Silva

David Fernandes Silva é técnico superior na Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira. É um apaixonado por História e religião. Escreve todos os meses na revista gira.

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