E o Brasil aqui ao lado

Independentemente de outras questões de maior consciência política, as monarquias exercem culturalmente um fascínio, por via de um certo ‘glamour’ e estética que aportam consigo. Isto porque, apesar de tudo, as eventuais “histórias dos filhos dos presidentes da república”, não rebateram ainda as “histórias de príncipes e princesas”. Questões de dicotomia república-monarquia aparte, a verdade é que temos 800 anos de História em monarquia e apenas 100 em república. A esse propósito, perguntavam-me, há dias, onde ficariam os reis, nas suas permanências em Vila Franca de Xira. Dependerá das épocas, mas convém perceber que os reis eram mais “simples” e menos “esquisitos” com os locais onde ficavam do que nós, quando temos ficar num qualquer hotel ou alojamento. Mas como “recebemos bem”, gostamos de dar o melhor.
Em Vila Franca, os reis teriam provavelmente um pequeno paço mas, em muitas épocas, ficariam em casa de algum nobre mais abastado, que aproveitaria para se “roçar na realeza”. Um desses casos é, para os finais do século XVI, a “Quinta de Tomé de Sousa” onde pernoitou D. João III, em Outubro de 1551, recebido por Dona Maria da Costa, esposa de Tomé de Sousa, ou D. Sebastião, em Novembro de 1577.
Este anfitrião é particularmente importante, pois é uma grande personagem da História do Brasil. Tomé de Sousa (1503-1579), depois de uma notável carreira militar e política, foi o primeiro governador do Brasil (1549-1553), onde se destacou pela sua capacidade em conjugar diversos interesses, origens e culturas, de tal ordem que D. João III o fez vedor da sua Casa e comendador, na Ordem de Cristo, por exemplo, de Arruda. Já velho “retirou-se a viver na sua quinta, onde honrada, e filosoficamente viveu”. Foi ele que fundou a primeira cidade brasileira: Salvador; que sistematizou o primeiro sistema político e admi-nistrativo do Brasil, quer central, quer municipal; que promoveu a primeira indústria e agricultura brasileira; e que trouxe os primeiros padres jesuítas, procurando que sempre que possível se integrassem, na liturgia, tradições locais (para facilitar a aproximação e facilitar a adesão pacifica à fé).
Tomé de Sousa jaz no Convento de Santo António, dito da Castanheira, na Loja Nova (V. F. Xira). Há muitos anos que o Brasil tenta transladar o seu corpo para o Brasil, como um dos primeiros heróis da história brasileira. Neste ano em que se comemoram 195 anos da independência do Brasil, talvez valha a pena recordar “este Brasil aqui tão perto”, que sabia, no tempo de “príncipes e princesas”, receber reis e ter feito crescer aquele país-irmão.

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